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Viajar é um investimento que vai muito além do destino

Foto do escritor: Isabel Debatin
Isabel Debatin
há 10 minutos
3 min de leitura

Há quem volte de uma viagem com a mala cheia de lembranças. Eu gosto de pensar também em tudo aquilo que trazemos sem perceber: uma nova referência, uma vontade que antes não existia, uma maneira diferente de enxergar algo que sempre fez parte da nossa rotina. Conhecer outros lugares tem esse efeito curioso de nos apresentar ao mundo e, ao mesmo tempo, revelar coisas sobre nós mesmas.


Quando saímos do ambiente em que estamos acostumadas a viver, encontramos outras formas de organizar a vida, e a mente. A maneira como as pessoas se relacionam com a comida, por exemplo, pode revelar tradições familiares, influências religiosas e costumes que atravessam gerações. A disposição das casas, o desenho dos bairros e a arquitetura de uma cidade contam histórias sobre quem viveu ali, sobre como aquela sociedade se desenvolveu e a maneira como enxergam o futuro. Até os hábitos mais cotidianos podem despertar perguntas que dificilmente faríamos dentro da nossa própria realidade.


É nesse contato com o diferente que começamos a ampliar nosso repertório. Descobrimos novas referências culturais, conhecemos outros comportamentos e percebemos que existem inúmeras maneiras de viver uma mesma experiência. Algumas nos inspiram, outras nos causam estranhamento e há aquelas que nos fazem reconsiderar opiniões ou valorizar aspectos da vida que já temos.


Mas o que uma viagem pode mudar na maneira como pensamos?


Pesquisadores também se interessam pela relação entre experiências multiculturais e criatividade. Um estudo de William Maddux e Adam Galinsky, publicado em 2009 no Journal of Personality and Social Psychology, investigou como a vivência em outros países se relaciona com a capacidade de produzir ideias criativas. Os resultados sugerem que a adaptação a outras culturas pode favorecer processos de pensamento mais flexíveis. Isso não significa que fazer uma viagem nos torne automaticamente mais criativas, mas ajuda a entender por que o contato genuíno com diferentes formas de viver pode ampliar nossas referências.



E não precisamos atravessar o oceano para experimentar isso. Uma cidade próxima, uma comunidade com tradições diferentes das nossas ou um lugar que nunca tivemos a curiosidade de conhecer também podem nos apresentar a outras realidades. O destino importa, mas a maneira como escolhemos viver a experiência faz diferença no que levamos dela.


Tenho a sensação de que todos os lugares que conheci, embora até então eu ainda não tenha saído do Brasil, deixaram alguma coisa comigo. Alguns despertaram desejos e inspirações, outros trouxeram reflexões e até medos que eu não sabia que tinha. Nem sempre conseguimos identificar essas mudanças enquanto estamos viajando. Às vezes, é depois de voltar para casa que percebemos como determinada experiência continua influenciando nossos pensamentos, interesses e escolhas.


Um investimento que continua depois da volta


Costumamos avaliar uma viagem pelo dinheiro que gastamos, pelos lugares que visitamos ou pelas experiências que conseguimos incluir no roteiro. Mas parte do seu valor está justamente naquilo que não conseguimos planejar: uma conversa inesperada, a descoberta de um costume, o encontro com uma realidade muito diferente da nossa.


Essas vivências podem contribuir para a forma como nos relacionamos com outras pessoas, desenvolvemos ideias, educamos nossos filhos ou interpretamos situações do cotidiano. Também podem nos ensinar a observar antes de julgar e a compreender que os hábitos de uma sociedade estão ligados à sua história, às suas condições e aos valores que a constituem.



É por isso que considero viajar um investimento tão interessante. Não pela quantidade de destinos acumulados, mas pelas experiências que passam a fazer parte de quem somos. Uma viagem pode durar poucos dias, enquanto uma referência adquirida nela pode nos acompanhar por muitos anos.

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