Quem a gente escolhe colocar em evidência?
- Isabel Debatin

- há 14 horas
- 2 min de leitura

Nos últimos dias, uma notícia ganhou destaque: a cientista brasileira Tatiana Sampaio desenvolveu uma pesquisa que pode permitir que pessoas com paraplegia voltem a andar. O estudo ainda está em processo científico, como toda descoberta séria precisa estar, mas os resultados iniciais são promissores.
É uma notícia grande.
Transformadora.
Daquelas que impactam vidas inteiras.
Mas junto com a admiração pelo avanço, fica uma pergunta incômoda: por que nomes como o dela só ganham espaço quando há um resultado “impressionante” para mostrar?
Enquanto isso, diariamente, pesquisadores passam anos dentro de laboratórios. Testando, errando, recomeçando. São anos de estudo, validação, questionamento e persistência. Ciência não nasce pronta. Ela é construída em silêncio.
A gente vive num tempo em que o palco é rápido. Pessoas sem aprofundamento técnico acumulam milhões de seguidores falando sobre saúde, corpo, comportamento e até cura. Fórmulas mágicas circulam com facilidade. Receitas simplificadas viralizam.
Mas quem dedica a vida a pesquisar com rigor científico raramente vira tendência.
O Brasil é um país em que a ciência muitas vezes precisa provar o próprio valor repetidas vezes. E ainda assim, muitos preferem acreditar em atalhos, promessas rápidas e discursos convenientes.
Durante a pandemia isso ficou evidente. Especialistas eram questionados enquanto opiniões rasas eram compartilhadas como verdade absoluta. A consequência disso a gente conhece.
Colocar uma cientista em evidência não deveria ser exceção. Deveria ser regra.
E tem mais uma camada importante aqui: estamos falando de uma mulher. Em um campo que historicamente exigiu que mulheres provassem competência duas vezes mais. Cada resultado como esse carrega não apenas avanço científico, mas resistência, disciplina e construção de longo prazo.
Esse tipo de história também ensina algo sobre processo.
Grandes resultados não aparecem da noite para o dia. Eles são fruto de anos de trabalho invisível. De persistência quando ninguém está olhando. De construção constante.
Em um tempo que valoriza o imediato, talvez seja urgente reaprender a valorizar o consistente.
Celebrar a ciência não é apenas comemorar uma descoberta.
É escolher dar palco a quem constrói futuro, mesmo quando ainda não há manchete pronta.



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